Saúde

Um terremoto para sua saúde também!

Olá amigos,

Eu confesso que não tinha um real entendimento quando eu estudava os efeitos do trauma no nosso organismo. A parte física parecia lógica (Alto estresse, baixa imunidade, doenças oportunistas), mas a psiquê era algo bem distante da minha compreensão.

Daí veio o terremoto do dia 19 de setembro de 2017 e eu estava morando em um dos bairros mais afetados da Cidade do México.

Meu relato pessoal daquele dia: Eu tinha chegado de uma viagem internacional, tinha passado a noite inteira no avião e nunca consigo dormir nessas viagens. Estava exausta! Cheguei em casa as 10 da manha e capotei. Estava sozinha. Acordei com um som super alto, intermitente, irritante, e finalmente entendi o que dizia “Alerta Sísmico, Alerta Sísmico”. Eram 11 da manha. Abri a porta do meu apartamento e lá estava minha vizinha tranquilamente esperando o alerta passar com sua filha no colo. ” Fica tranquila Marina, esse alerta é uma simulação, hoje é aniversário do terremoto que atingiu a Cidade do México em 1985, todos os anos eles fazer essa simulação, até como uma forma de treinamento e atenção pelo que aconteceu naquela época”. Voltei a dormir tranquila.

Duas horas depois acordei com o início do tremor, acho que fui deitar com a palavra terremoto na cabeça, então já levantei sabendo exatamente o que estava acontecendo, apesar de nunca ter passado por isso. Não me desesperei, não tive medo de morrer. Meu apartamento balançava inteiro igual uma casa de boneca. Eu não conseguia mais correr, não dava tempo. Me segurei entre a porta do corredor e esperei passar. Nada passava pela minha cabeça. Nem filme da vida, nem a imagem de alguém especial, apenas “vou esperar o terremoto passar e depois vou sair daqui”.

Durou quase 2 minutos (Isso eu fiquei sabendo, porque a relação de tempo se perde nesses momentos). Peguei meu celular e desci. Minha vizinha estava completamente desorientada na rua. Ela desceu as escada junto com o tremor, com duas crianças pequenas. E ainda estava preocupada porque tinha me dito para ficar tranquila. Sua voz tremia enquanto ela tentava ligar para seu marido, mas muitos telefones já estavam sem sinal.

Felizmente o meu telefone estava funcionando. Passei uma mensagem para aqueles que eu sabia que teriam um “ataque cardíaco” se vissem alguma notícia no jornal: Meu marido e meus pais. E esperei.

Depois de pouco tempo meu edifício foi liberado, ele não apresentava sinais de danos estruturais e não tinha chances de cair. Não era o caso de todos. Vários edifícios no meu bairro caíram ou estavam condenados.

Meus vizinhos se organizaram para sair pelo bairro e ajudar no resgate. Eu não consegui ir com eles. Não me sentia capaz de fazer nada. Não me sentia preparada. Recebia as fotos da vizinhança no meu Whatsapp todo o tempo. Não sentia nada. Parecia um filme. Devo ter falado com pelo menos umas 20 pessoas no dia 19. Meus amigos do Brasil viam as notícias e me escreviam para perguntar se estava tudo bem, eu sempre respondia a mesma coisa: Foi um susto, mas está tudo bem. Não me lembro com quem falei naquele dia.

As seguintes noites foram de alerta. Dormi de calça jeans, tenis e casaco e tinha a minha mochila de documentos ao lado da cama. Quer dizer, passei a noite, porque era impossível conciliar o sono. A Cidade do México já tem uma poluição sonora por si só. No dia 19 foi diferente. Cada ambulância que passava na minha rua me gerava um sentimento de pavor, eu escutava gritos e choro o tempo todo e até hoje não sei se estavam acontecendo mesmo ou se eu estava criando na minha cabeça.

Dois dias depois a lesão da herpes apareceu na minha boca. Com uma força impressionate. O meu cabelo sempre caiu, mas desde esse dia ele despencou. Ainda tenho a impressão que vou ficar careca.

No sábado dessa mesma semana o Alerta Sísmico tocou de novo, por volta das 7 da manhã. Esse foi diferente. Não senti nem um chacoalhão, o epicentro foi mais distante daqui, mas eu achei que ia morrer. Fiquei completamente desorientada, nunca senti meu coração bater tão forte, não conseguia pensar. Não sabia se corria ou se pegava meus documentos, se pensava em mim ou se ajudava meu marido, que dessa vez estava comigo e sem o trauma do dia 19. Ele estava completamente calmo por sinal, o que me ajudou muito.

Descemos todos, não fomos atingidos seriamente. Está tudo bem. Voltamos para o apartamento.

“Será que está tudo bem mesmo?” eu pensava. Mas o tempo foi me ajudando a filtrar meus pensamentos.

Percebi que eu passei por vários momentos mentais desde o terremoto: distanciamento emocional (Esquiva), Hiperexcitação (Estado de alerta constante), Perdas e confusão cognitiva (Déficits na memória) e sensação de que estava acontecendo tudo de novo (Revivescência). Quando decidi ler a respeito disso para a gravação do meu vídeo semanal entendi que essas são as reações possíveis e normais do trauma. E finalmente compreendi parte da psiquê de um evento como esse.

A nossa saúde é muito mais complexa do que podemos imaginar. Eventos como esse nos ensinam muito. Esse em particular esfregou na minha cara o imprevisível, a impotência e a aceitação. Agora cabe a mim tentar aproveitar essa chuva de insights e tentar crescer com isso, até porque existe crescimento interno no trauma e a nossa saúde agradece.

Este foi o vídeo que gravei para o canal:

Abraço a todos!